sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Afinal Os Homossexuais São Pessoas!


A discussão do casamento entre pessoas do mesmo sexo na assembleia da república revelou o abismo entre as posições dos vários grupos parlamentares espelhando de alguma forma a divisão que existe na sociedade em relação a este tema. O que alguns deputados se esquecem é que a sua função na assembleia não é somente representar os cidadãos que os elegeram mas legislar de acordo com a constituição da república e atender aos direitos fundamentais de TODOS.

Em primeiro lugar saúdo a iniciativa do BE e dos Verdes em propor este projecto lei que promove  direitos iguais para todos os cidadãos, independentemente da sua orientação sexual, em consonância com a evolução da sociedade e da crescente abertura e afirmação da comunidade Gay, Lésbica, Bissexual e Transgénero. O PSD e o CDS-PP voltaram a invocar argumentos claramente homofóbicos e consequentemente anti-constitucionais e outras razões levianas e retrógradas para descriminar um grupo de cidadãos.

Ambos o PSD e o CDS-PP invocaram o argumento bacoco que já vi em vários blogues e imprensa escrita que esta não é uma prioridade do país neste momento. Como contrapôs o BE, na excelente resposta de Luís Fazenda, então os direitos fundamentais dos cidadãos não são sempre uma prioridade do Estado? E  o sofrimento dos cidadãos que advém da discriminação dos outros e de terem de esconder as suas relações afectivas, também não são uma prioridade? Para estes partidos os interesses dos cidadãos só se devem centrar na economia, o que é quase dizer que os cidadãos são uma coisa económica, cujas demais dimensões a assembleia deve discutir quando lhe sobra tempo.

O PSD invocou o casamento como pilar milenar da família, cuja preservação está em risco, não vão os heterossexuais casados começarem a querer divorciar-se para se casarem com outros do mesmo sexo. Foi triste ver o deputado António Montalvão falar empolgado dum daqueles fatos azuis com os ombros armados e óculos de massa, que me fez lembrar as figuras do Estado Novo, e mais grave, com ideias próprias dessa época. Esta ideia peregrina de que os homossexuais, quais agentes patogénicos, desvirtuam o casamento e a família esconde a cegueira perante o evoluir da sociedade e da própria família. Quantas famílias fragmentadas conhecemos, quantos casais divorciados, quantos tipos diferentes de famílias  surgem à nossa volta? Afinal queremos aceitar e conviver com a diversidade? E as leis, devem acompanhar e até preconizar a evolução da sociedade ou manterem-se fiéis a paradigmas do passado?

O CDS-PP foi mais longe no ímpeto homofóbico comparando o alargamento da instituição do casamento a pessoas do mesmo sexo à poligamia, e já agora porque não ao incesto e à zoofilia? Afinal só faltou dizer que os homossexuais são aqueles animais predadores sem sentimentos que andam à caça de garinos no Parque Eduardo VII como foi tantas vezes visto um certo dirigente do CDS-PP. Deve ter sido por isso que o Nuno Melo iniciou o seu discurso com a ressalva que respeitava a orientação sexual de cada um. Mas em que contexto? Na boa tradição dos pastéis de nata da direita, sabe-se mas não se fala, não vá algum santo cair do altar e a madre igreja zanga-se connosco.

Quanto ao PS não percebo nada. É a favor mas vota contra, não acha oportuno mas para a JS, para o Manuel Alegre e para outros tantos deputados do PS já era oportuno. O PS mostrou-se perante esta questão como o primeiro ministro e outros tantos políticos, pouco-à-vontade. Porque é que será? Actualmente, os comportamentos homofóbicos, considerados clinicamente disfuncionais têm duas explicações técnicas: ou são por ignorância, estranheza e consequente resposta agressiva perante algo desconhecido ou insegurança quanto à sexualidade do próprio. O PS é seguramente inseguro sexualmente.

Durante a semana, inúmeros debates e reportagens, em particular na SIC, na RTP e nos jornais fizeram o papel da verdadeira democracia, falar do que se tem reservas em falar e que diz respeito a todos. Através da televisão as pessoas puderam ter contacto com os homossexuais pessoas e não com a coisa abstracta do casamento homossexual. Curiosamente pude constatar que as pessoas que participavam nos debates e entrevistas que tinham conhecimento ou amizade com homossexuais tomavam uma posição mais liberal e dignificante dos direitos da comunidade LGBT. O casamento dos homossexuais quando se torna visível no nosso vizinho do lado torna-se humano, deixa de ser algo longínquo e abstracto e suscita uma reacção afectiva que na maioria dos casos ultrapassa os preconceitos culturais. Cabe à comunidade LGBT tornar-se mais visível, dar a cara, dizer que existe e que é feita de carne e osso para que os outros nos olhem como iguais.

No final da semana, as sondagens que há um ano atrás tinham cerca de 70% da população contra o casamento homossexual, baixaram para pouco mais de 50%, o que é significativo num país claramente conservador nos costumes. Vale a pena debater, vale a pena viver em verdadeira democracia e vale a pena lutar contra a homofobia! Apelo a toda a comunidade LGBT que não votem nos partidos que não nos reconhecem igualdade de direitos. Desta vez perdemos no Parlamento mas ganhámos na Opinião Pública. Não tardará que um beijo e um abraço entre gays, lésbicas, bissexuais, transgéneros seja visto simplesmente como um beijo e um abraço .


1 comentário:

Anónimo disse...

Arrasaste! Adorei! Só falta mesmo que alguns media com poder sócio-cultural queiram publicar este texto.