Foi com enorme incredulidade que soube hoje a notícia de que o grupo parlamentar do PS iria impor disciplina de voto contra a proposta de casamento entre pessoas do mesmo sexo e o PSD tomava uma posição oficial reprovando a mesma proposta. Enquanto cidadão português, europeu e homossexual, envergonho-me destas posições hoje tomadas, manifestamente homofóbicas, que me descriminam a mim e a tantos outros homossexuais face aos cidadãos com outra orientação sexual.
Várias questões se levantam contra os argumentos invocados por ambos os partidos. A democracia Portuguesa é mesmo democrática quando não reconhece os direitos das minorias e a igualdade de direitos entre todos os cidadãos? Com que legitimidade os políticos descriminam um grupo de cidadãos com base na orientação sexual, contrariando o artigo 13º da constituição e as recomendações da União Europeia?
O PS invoca a falta de oportunidade da proposta não agendada pelo Governo. Mas então o governo só aprova propostas agendadas por si enquanto simultaneamente reclama propostas da oposição. Parece-me este argumento paradoxal e pouco convincente. Com a proximidade das eleições parece-me que o PS está com receio do impacto desta proposta no eleitorado do centro, esquecendo-se que afasta de si outros eleitores, que como eu, neste dia, trocaram o voto no partido socialista pelo voto no bloco de esquerda. Ainda assim, espanta-me que um partido de esquerda (ou de direita) imponha como prática dita democrática a disciplina de voto. Esta prática sugere-me que os deputados não podem exprimir as suas opiniões enquanto indivíduos e responder livremente aos círculos eleitorais que os elegeram. Vou ficar sem saber quem são os deputados que apoiam a descriminação dos homossexuais e os que são contra. Vou ficar sem saber qual a posição dos meus representantes na Assembleia da República, ou melhor, fico a saber que o partido no qual votei nas últimas eleições, decide perpetuar uma lei que me descrimina segundo a regra dita democrática do rebanho.
Também fiquei a saber pelo líder parlamentar do PSD, Paulo Rangel, que "Numa sociedade multicultural nós também temos de respeitar os sentimento duma larga maioria de pessoas que vê no casamento uma instituição com determinadas características e que veria adulterar se ela tivesse outras características". Sendo assim, vamos passar a decidir as propostas de lei de acordo com o sentimento da larga maioria das pessoas, descriminando o sentimento das minorias. Será que a maioria das pessoas também pensa que o casamento serve essencialmente para procriar, o outro argumento defendido pelo PSD, e tão "homofobicamente" expresso pela sua dirigente algum tempo atrás?
Por último e para aumentar ainda mais a minha incredulidade soube que o Sr. Morais Sarmento, no programa "Falar Claro" da RR, referiu que a JS teria ido buscar "ao pipeline dos disparates" a prioridade dada ao casamento homossexual. Há alguns meses atrás notei surpreendido que o Sr. Morais Sarmento estava a meu lado na secção gay da Fnac do Chiado, a folhear literatura gay, tendo escolhido um livro de fotografias de rapazes meio despidos que viria a pagar à minha frente na caixa. Uma de duas hipóteses, ou o Sr. Morais Sarmento tem um amigo homossexual para o qual estaria a escolher um presente de gosto requintado ou o Sr. Morais Sarmento gosta de livros com fotografias de rapazes despidos. Eu estou-me perfeitamente nas tintas para o que o Sr. Morais Sarmento faz na sua intimidade bem como todos os outros políticos. Eu não quero é que eles decidam que eu tenho de ser como eles e esconder o que não quero esconder.
1 comentário:
Realmente os nossos políticos fazem deste nosso pequeno país um país pequeno.
Uma democracia assim é lamentável.
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